sexta-feira, 22 de abril de 2016

Trilíngue e um só coração

Os quatro gaúchos de Milão cantam em três línguas em Loreto Paradiso

E veio esse tempo da ditadura da tecnologia. Duro e frio tempo de gente conectada com chips, baites, pen drives, cabos, telefones móveis com suas luzinhas e barulhinhos secos que andam tatuados nas mãos como anéis que se aninham entre a gordura dos dedos. Era inevitável o avanço do futuro, daqueles porvires que lembram os autômatos do cinema passado, nós próprios parecendo um. Evolução da comunicação transferida pelos ares, captadas por satélites, transformada em conversas cheias de palavras abreviadas, curtas, obsessivas. É a vida virando onomatopeia. Vendo gente de cara com a outra, cara a cara, que se fala por celulares e se cala então, vem a nostalgia do toque, not screen, mas da mão suada e do diálogo generoso feito de língua e ouvido, de reações iluminadas, não pela tela, mas apenas pelo brilho dos olhos ou pelo sorriso discreto no canto da boca. É a nostalgia que inexiste, pela falta de prática e vivência, numa geração que já nasceu ninada e pilhada pelos sons do computador e de uma avassaladora internet. Por isso salta à vista quando esse sentimento franco de saudade é aceso por esses meninos que o traduzem de forma tão objetiva e que são, eles mesmo, retratos involuntários de um mundo em que ao mesmo tempo que cobra a globalização, gera a separação. Taí esses garotos da banda Selton, que acabam de lançar Loreto Paradiso (2016), para provar isso.

Veja o clipe de “Junto Separado”:


Selton é assim a cara desse admirável mundo novo nem tão novo assim. Gaúchos de tenra idade que foram parar na Itália para descobrir que podiam ser admirados exercitando uma música multicultural, de cores e temperos universais. Loreto Paradiso é trilíngue, cantado em português, italiano e inglês tão organicamente que esses músicos bem que poderiam ter vindo indistintamente de qualquer um dos países fontes dos sotaques da banda, sem que nos provocasse estranheza. Não fosse pela sentida nostalgia do Brasil e que dá uma identidade mais nítida e aproxima a banda dos tons verdes e amarelos. Mesmo quando se mostram extremamente estrangeiros e cosmopolitas, tá lá a saudade desse país hoje tão dividido politicamente. É o caso explícito e amoroso da canção “Junto Separado”, que ganhou um clipe moderno e emblemático. Minimalista bossa nova, de andamento hipnótico, questiona exatamente, em tradução objetiva, essa inquietante e contemporânea separação provocada pela tecnologia e pelos insurgentes e reveladores comportamentos da nova era. “Se tá todo mundo vivo, porque tá todo mundo tão separado, então?”, questionam os rapazes. E listam, ao som de um violão triste e barulhos tecnológicos, aquilo que poderiam nos aproximar e que, pelo contrário, só ajuda a aumenta abismos: “E vem laptop, palmtop, tablet, smartphone, notebook, walkie talkie, tralha e youtube, tudo isso pra quê?”.

Quarto álbum traz influência do indie, música italiana e do Brasil
Se tem uma certa coloração tupiniquim, imagino o papa João Gilberto arranhando a música mesmo que seja por brincadeira, “Junto Separado” tem também uma marcante vontade e aqui, talvez, uma natural consequência da trajetória além de nossas fronteiras compartilhada pela Selton e que a leva ao pluralismo musical. Ramiro Levy (voz, guitarra e ukelele), Ricardo Fischmann (voz, guitarra e teclado), Eduardo Stein Dechtiar (voz e baixo) e Daniel Plentz (voz, bateria) parecem estar sendo vendidos pela nova gravadora, a blockbuster Sony Music, apesar de ter três álbuns na bagagem, como a novidade brasileira que vem de Milão com influência do indie americano. E toda essa bagaça multiétnica transparece em Loreto Paradiso de maneira bem estanque e territorializada. A influência da Milão em que vivem e dos cantores italianos, como Enzo Jannacci, que dizem idolatrar e homenagearam com um disco, está por exemplo em “Qualcuno mi Escolta”. Com ares do solar e frívolo cancioneiro italiano, a composição é realmente uma reverência feliz aquela escola musical que um dia, no século passado, o Brasil também já amou e que talvez faça ainda mais sentido ao vermos que o sul do país, região onde os meninos nasceram, teve um relacionamento passional com imigrantes italianos. Volare, amigos. A sensual língua italiana reaparece mais interessante ainda na grudenta e gostosa “Buoni Propositi”, que tem no disco uma versão em português sem um décimo do charme que a estrangeira possui.
Mas, italianismos e nostalgia brasileira a parte, a Selton globalizada e roqueira, gênero que faz decididamente a cabeça desses gaúchos, se faz mais presente no lado indie americano de Loreto Paradiso. Essa influência mais incisiva já podia ser vista em Saudade(2013) trabalho anterior do grupo e que chamou atenção da crítica e dos indies de plantão. Com uma sonoridade que lembra as bandas Vampire Weekend, Foals e Animal Collective, que trouxeram justamente ao padrão indie um tom mais universal ao pinçar da África e outros continentes alguns elementos sonoros. Esse rock alternativo, mais cabeça e menos barulhento, nada de “metal fudido”, como ironizam na bem humorada “Cemitério de Elefante”, ganhou refinamento neste último trabalho da banda com a participação ilustre do italiano Tommaso Colliva, que já havia produzido canções de bandas renomadas como Franz Ferdinand e Muse. Guitarras comportadas e bem tocadas em sintonia com barulhinhos estranhos, tecladinho oldie e profusão do coro afinado desses meninos, em bons arranjos, comprovam essa evolução, principalmente nas músicas cantadas em inglês. É o caso da bacaninha “Be my Life” (repare no teclado que introduz a música), de refrão gachudo, na climática “Duty Free Romance”, cuja delicadeza e elegância lembra dos pre-indies ingleses do Style Council, e na ótima composição que dá nome ao álbum.

Capa do novo disco traz referência a cidade onde o grupo mora
Tudo bem, esses rapazes da Selton, que reproduzem no jeito de fazer música e nas letras diretas esse mundo novo de embolada global, não são exatamente a sétima maravilha da new generation brasileira. E nem tem essa pretensão, imagino. Talvez queiram até ser pops, mas o caminho alternativo que escolheram não o levarão a isso. Nem são também essa hype que a imprensa e os marketeiros da gravadora o querem definir. E a internet, que tudo nivela, possa até alça-los a um patamar mais justo de reconhecimento, diante de um quadro musical marcado recentemente por bobagens do tipo NX Zero e Fresno. E mesmo sem ter o peso e a clarividência de ótimos grupos como Boogarins, Apanhador Só e O Terno, contemporâneos cuja personalidade fica mais evidenciada, Selton mostra em seus dez anos de carreira uma coerência que pode levá-la a frutos mais tenros. Loreto Paradiso tem clarões de maturidade que fazem com que lá na frente a promessa dessa se tornar uma grande banda se cumpra. Talvez quando perderem um pouco da assepsia, cujos ecos no álbum me incomodam, e mergulharem em voos mais radicais que a alma brasil desses meninos pode sugerir. Esse disco vale uma escutada porque tem ainda mais cara de transição que o anterior. O que virá a seguir? Não sei, mas o que vier é lucro.
Cotação: Bom
Conheça mais sobre Loreto Paradiso em:

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Com açucar e com afeto

O maranhense Bruno Batista faz de Bagaça seu disco de virada
E se de repente a gente se enchesse de gentileza, como copo com água cheinho, beirandinho a boca, pra matar uma desenfreada sede. E se essa gentileza fosse regra inquebrantável a ponto de se metamorfosear, por ordem natural da vida, na mais contagiante delicadeza para todos nela se deitar. Quem sabe o mundo acordasse dançando valsa e toda a raiva e fúria contida nas entranhas dos desregrados, pobres diabos, se desmanchassem em fumaça que o vento levaria num sopro derradeiro. Um dia vi essa delicadeza passeando altiva, em veste aos frangalhos, nas ruas da São Luís colonial. Um homem sem moeda no bolso e com ouro no coração amparando uma senhora que caíra, na cama de gato que a velhice as vezes arma, se espalhando caudalosa ao lado dos pertences vomitados pela bolsa. Tostões e cédulas. Batom, fotos, lenços e bibelôs juntados, um a um, pelo homem sem posse e devolvidos com um sorriso entremeado entre parcos dentes. A mulher antes assustada pela figura voluntariosa sem moeda no bolso e coração de ouro, diante de quem o preconceito logo cria armadura, desarmada pelo gesto gentil, reagiu abrindo o branco irretocável de sua dentadura alinhada. E os dois seguiram, ele vestido de dourado, em direções diferentes, pelas ruas do centro histórico da capital maranhense com a sensação - imaginei no calor da tocante cena - de que a delicadeza é um doce remédio para a frieza desses dias. Revi essa delicadeza, soprada pelo Maranhão, e talvez por isso mesmo tenha recordado dela mas muito e, coincidentemente, pelo o que a música me afagou, no álbum Bagaça, de um artista chamado Bruno Batista.

Ouça "Nigrinha":

https://www.youtube.com/watch?v=UNccTNom_8Y

De Bruno já havia ouvido, em minhas andanças por uma então castigada São Luís, o primeiro e revelador álbum de 2004, que leva o nome do artista. O trabalho deixou ecos em mim e por dias se fez presente em noites rasantes na minha vitrolinha. Mas o tempo, cruel na maquinação em nos separar daquilo que nos faz bem, e tudo o mais que a vida, essa doidivanas, se agiganta e nos impele a uma desembestada correria, atropelaram essa relação que, enfim, mal começara. E fim. E perdi Bruno de vista até reencontra-lo, num momento de delicadeza, nesse seu Bagaça(2016), depois de um hiato pra mim de dois CDs, Eu não sei Sofrer em Inglês(2011) e(2014). Doce reencontro. No final da primeira audição do quarto álbum do cara veio a sensação de uma música mergulhada na gentileza e que nos leva ao território do aconchego. Mesmo nas faixas em que o verbo solto rasga a seda, há na poesia das letras uma engenharia que conforta a alma. O mais recente disco desse nascido pernambucano, crescido e assumido maranhense, se aferra assim à maturidade, com toda a serenidade que esse abraço produz. Porque Bruno Batista parece ter achado o ponto da virada para cair na graça de uma plateia mais abrangente. Ele mostra-se preparado, e muito bem preparado, para ganhar o Brasil que extrapola as fronteiras de seu bem amado Maranhão. 

Bruno usa o verbo das associações e rimas serenadas
Bagaça é fel e mel. Tange a realidade com sua poesia de encontros e partidas. De associações surpreendentes do rico vocabulário português, esse casamento consumado com a beleza de nossos verbos tão sonoros, das rimas serenadas que nos espinha ao mesmo tempo que acaricia. O que pode essa língua? Desde a primeira música, que intitula o disco, com lindo arranjo de cordas, aliás, um lugar comum no álbum, Bruno Batista ateia fogo na palavra expondo seu universo rico de imagens e provocações, prenhe de invocações. “Onde será que isso termina, urucubaca, ronco de trovão/Essa ressaca, essa heroína, essa maldita fiação(...)Eu não quero saber em que espelho se vê a minha geração/vou encharcando o barro, empurrando o carro, esmurrando o portão”, avisa o artista sem cerimônia, mas com uma elegância pouco vista por músicos de sua geração. Às vezes é preciso ser culto pra se mandar alguém à puta que o pariu. E isso faz uma grande diferença. Porque nesse mundo, arremata Bruno na mesma canção com andamento moderno e vibrante, “todos querem a novidade, todos querem a babação, ninguém quer piedade, todos querem perdão”. Um desabafo em tom maior, uma bela introdução para a arte bem engendrada do cantor e compositor.

A música de Bruno tem inteligência e substância, dessas cujo conteúdo não perdem de vista a relação amorosa com o público. Ou seja, está longe de ser metida a besta ou difícil. Por isso dialoga, num espasmo único, com os que entendem os versos barrocos e cheio de referências cultas de “A Ilha”, música dedicada a São Luís que um dia será abraçada pela cobra gigante que morde o próprio rabo. E também com aqueles que gostam de chacoalhar com músicas decentes e espertas. “Nigrinha”, parceria com o também maranhense Zeca Baleiro, está prontinha para tocar nas trilhas de novelas da Globo. Com o balanço irresistível das guitarras do paulista Gustavo Ruiz e do paraense de Felipe Cordeiro, um dos renovadores da música do Norte, essa canção é pura pérola pop com seu arranjo buliçoso e letra de apelo radiofônico: “Torce pelo amor sincero, vendo a novela das nove/Quando o galã diz te quero e a mocinha se comove/Nigrinha, nigrinha, nigrinha não se abala com gentinha/Nigrinha, nigrinha, quem disse que era minha?”. No mesmo diapasão, o ouvinte se depara com as folhetinescas “Blockbuster” e “Você não Vai me Esquecer Assim”. A primeira é uma desbragada assunção de fim de caso. A segunda, feita pra dançar agarradinho, traz mistura de guitarras havaianas com brega e o bolero, carrega na letra cinematográfica, repleta de imagens de um cotidiano bem humorado: “Depois de começar um novo drama e nunca lembrar de apagar o gás/Depois de escolher o lado da cama e contar as horas para trás/Você não vai me esquecer assim, meu bem”.

Capa do disco de Bruno Batista: véu da sensibilidade
É o mesmo Bruno Batista que usa a veia poética e coração desnudado para tocar o véu da delicadeza. E esse espírito pouco comedido e oferecido, graças a deus, vai buscar inspiração em ritmos tradicionais do Maranhão para se oferecer no disco, por meio da elaborada química do arranjo, moderna e emotiva, na linda “Batalhão”. Aqui, os tambores e as matracas hipnóticos do bumba meu boi, em compasso com as guitarras derramadas, conquistam uma nova dimensão para representar o batalhão de rosas. A música gentil ganha ainda outros ecos em composições onde o delicado emerge imantado e encantadoramente. É assim na encorpada “Caixa Preta”, climática, etérea, com marcante arranjo de cordas e solo apaixonado. “Teu corpo é o primeiro plano, paixão ilícita/Minha seiva e destruição(...) Eu gosto do teu corpo e do que ele faz”. E principalmente nas inspiradas “Guardiã”, uma das mais belas melodias do álbum, música para um amor de toda estação, e “Turmalina”, cantada por Dandara, parceira de velhas batalhas e palcos. Poesia unha e carne com a melodia, essa canção é uma acachapante ode ao amor que unifica almas: “Você é o colar de turmalina, eu o coração, o camafeu/Você a cajuína, doce de nata/O teu lugar, o teu lugar é o meu”. Por essas e outras obras do afeto, Bagaça é disco de se guardar, de se ouvir de olhos fechados e coração aberto, de se dançar com todas as células do corpo, deixando-se emaranhar na sensibilidade que esse grande artista expõe de forma tão crua e certeira. Seja você essa bagaça.

Cotação:  Bom

Com amor e com afeto, faça o download:

http://brunobatista.net/

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Lâmina cortante, essa mulher

A empoderada Larissa mostra as garras e o verbo
Tem que ter mais. Tem que se multiplicar nesse país imaturo a mulher negra, branca, cafusa, amarela que fala, solta o verbo, dá cara a tapa, dá tapa no mundo, transcendendo o discurso feminista, acendendo faróis. Que o discurso seja feminino, de gente esclarecida, daquela empoderada de si mesma, que reconhece e põe o dedo, de unhas feitas, na ferida do preconceito, na gangrena do homem bruto. E que isso resgate dignidade, ferroe a consciência e baste para que a sociedade se olhe no espelho da hipocrisia e seja simplesmente humana. Bom ouvir e sentir esse verbo gritado e ativo na voz dessa baiana desabusada chamada Larissa Luz. Confidências e inconfidências de uma artista ligada a seu tempo, provocativa e intensa nesse Território Conquistado (2016), segundo álbum de uma negra que, além de linda, quer ser merecidamente ouvida e respeitada. Dez canções dedicadas a dez mulheres que deixaram marcas na história e servem de referência para aquelas que se amam e não se calam diante da ignorância e dos que resistem a uma mais que necessária evolução da realidade.

Veja e ouça “Território Conquistado”:

Território Conquistado é exercício de talento e contemporaneidade. A música de Larissa Luz se insere em um tempo em que a pro-atividade é mecanismo preciso para que nosso cotidiano não se afunde na lama do retrocesso e da barbárie. Porque temos tendência a essa barbárie, a brutalização do sentimento provocado por uma sociedade de homens bombas e balas perdidas cada vez mais individualista e amedrontada. Ainda matamos, ainda passamos fome, ainda tratamos a mulher e os negros, a gente de tantas cores, de maneira burra e desigual. A baiana revela-se em paz com relação aos genes e gênero e reativa aquilo que a corrói e a eleva no seu bonito e moderno álbum. No discurso (ela também é compositora, em parceria, de todas as canções) e na sonoridade. Não é um disco fácil, porque está longe de ser condescendente com o que está culturalmente institucionalizado, principalmente no que se refere à condição do gênero feminino, e com os ouvidinhos acostumados a uma mesma e empobrecida trilha sonora. Ou seja, é trabalho pra causar incômodo, mas passado os primeiros momentos de intranquilidade de quem o escuta, não tem como resistir à inteligência da proposta musical, feita de corte e aço.

Elza Soares dá palhinha de luxo no álbum
Larissa Luz é lâmina e transparência. Seu universo feminino é explorado da maneira mais honesta e direta que sua inquieta alma permite. A ex-integrante da banda Araketu, que tem ainda no currículo o trabalho solo MunDança(2013), evolui em Território Conquistado, radicalizando na sonoridade e experimentalismo, testando corajosamente uma música que belisca o rap, o rock com veia punk e a música negra de raiz. Um som que torna-se orgânico com a ferocidade e o cunho intimista das letras. E talvez seja esse mesmo o conceito proposto. Vestir seu discurso engajado e radical, do ser mulher e do ser espiritual, com uma roupagem sonora moderna que busca fugir de classificações, ainda que se visualize aqui e ali influências musicais. É um disco eminentemente autoral com toda a verdade que essa palavra implica. E a carta de intenções é apresentada logo no início do disco, com a inclassificável “Descolonizada”, que mistura de rock(plugue-se na guitarra de Pedro Itan) e rap e demonstra o poderio da moça sem meias palavras: “Eu quero voar, escrever o meu enredo. Liberdade é não ter medo/Eu não vou entrar nessa jaula, eu não nasci para ser adestrada”. Um começo devastador e que nos prepara para a saraivada da mais santa verborragia que vem na sequência.

E pra toda a saraivada há uma mulher homenageada. Cada música, uma referência e uma reverência. Da mãe, Regina Luz, a outras guerreiras também cheias de muita luz: Carolina de Jesus, Bell Hooks, Victoria Santa Cruz, Elza Soares, Makota Valdina, Chimamanda Ngozi Adichie, Beatriz Nascimento, Lívia Natália e Nina Simone. E como uma Elza Soares que resiste imperativa aos trancos da vida, Larissa canta a força de seu sexo, desafiando os machistas de plantão e aquelas que definham em seus quartos arregadas pela opressão. Junto com a excepcional musa da MPB, a baiana engrena um rap moderno na ótima canção que dá título ao disco e desafia: “Boto fogo no olhar e acendo minha consciência. Jogo pra ganhar. Me abasteço de argumento, conteúdo é munição”. Elza não foge à luta e complementa com sua voz altiva e provocadora: “Ocupamos nosso espaço, cada passo um espaço. Para quem não conhece o respeito, eu sou um perigo”. Em “Bonecas Pretas”, outra música dançante com toque de eletrônica e tambor, na mesma linha contestatória e politizada, a artista reclama mais espaço no mundo para brinquedos sem distinção de cor: “Um caso contestável, direito questionável, necessidade de ocupar, invadir as vitrines(...)Cor, identificação transformadora: procura-se bonecas pretas”.

O discurso de Larissa Luz não é raivoso, é de quem escolheu o caminho de se impor, de ser tratada por igual. Nem que pra isso tenha que enfrentar um exército de desarrazoados. É guerreira de fé e nascença. E sua arma é o verbo afiado e uma voz afinada, cheia de personalidade: ‘Minha voz vai te ferir, meu sorriso vai fazer você sangrar/Minha força, espinhos que espetam você”, avisa em “Violenta”. Coisa de gente bem resolvida, que conhece o que a rodeia e a si mesma. Não à toa, revolve a espiritualidade que tem em si, como em “Banho de Mar”, bela música de estranha sonoridade, de experimentalismo regado a batuque de candomblé: “Mau olhado chegou na minha frente, deu de cara com a minha fé e nada me causou/Se recolheu gentilmente com medo de, de repente, tropeçar no próprio pé”. Uma religiosidade incorporada epidermicamente em Larissa, porque, afinal, corpo também é igreja, como traduz em “Transe”: “Dança, bruta, dança violenta, verdadeira, prepara meu corpo para ser sua morada. Alma lavada”. E também na fantástica “Meu Sexo”, com levada de funk carioca e guitarra e baixo marcantes, destaques também nesse disco: “Despudorada, empoderada, eu não abro mão do meu sexo/(...)/Ei, é o meu sexo. Quem disse que é pra você?”. Larissa é uma artista jovem e rara, uma mulher que não quer passar impune por seu tempo, e “Território Conquistado”, um testemunho ativo dessa beleza toda.

Cotação: Ótimo

Faça o download:
http://www.larissaluz.com/territorioconquistado/index.html

terça-feira, 29 de março de 2016

Cabeça feita

Treze músicos e uma missão: eletrizar você
Bater tambor tem um significado especial para os brasileiros. Porque convoca nossa ancestralidade e nos enraíza ainda mais nesse estado de todos sermos também um pouco, ou muito, negros. Não é só o pé na senzala, é o corpo inteiro, indicativo de uma alma que tem inclusive e indelevelmente as cores quentes da África. Nesse terreiro somos todos brincantes e, se temos musicalidade afoita, devemos a uma herança de noites de banzo e batuque. Por isso, essa dívida que não cessa com os ritmos de percussão forte que, miscigenados sem preconceito a outros sons de fontes diferentes, geram música ao mesmo tempo moderna e radical. Os paulistanos do Bixiga 70 exercitam, há alguns anos e CDs, magistralmente essa mistura. Jazz, batida eletrônica e instrumentos percussivos num único e delicioso cadinho. Na mesma linha abrasiva comungam os cariocas do Abayomy, que oferecem seu segundo trabalho, Abra sua Cabeça (2016), sob a assumida influência e benção do suingado e politizado afrobeat do incendiário Fela Kuti. Um álbum maduro que coloca de vez o combo do Rio de Janeiro na lista da finíssima e boa música que você não pode deixar de ouvir.

Escute o disco na íntegra:
É preciso que se diga que, do primeiro disco do grupo de 2012, assinado ainda como Abayomy Afrobeat Orquestra, para este segundo, os 13 músicos da banda abraçaram uma variação musical que, se não os afastaram muito da sonoridade da estréia, os aproximaram do batuque característico da Nação Zumbi. O grupo continua sendo afrobeat dos bons com um toque personalizado e enriquecedor dos tambores do maracatu pernambucano a cargo do produtor do CD, Pupillo, da banda que nasceu com o mítico Chico Science. Os cariocas mantem saudavelmente o elo com a música que transformou o multi-instrumentista nigeriano Fela Kuti numa figura capital, quase uma entidade, por ter ousado misturar ritmos africanos com os ocidentais sem ter perdido a identidade. A contribuição de Pupillo vem para agregar um batuque a mais, tambores e guitarras dissonantes a mais, sedimentando a essência afro-brasileira no já fervilhante e miscigenado som da Abayomy. É evolução. É a busca de uma mistura que não tem tempo ruim e nem prazo para acabar.

Combo carioca refina música em disco primoroso
A reverência explícita a Fela Kuti aparece logo na primeira música, que dá nome ao álbum, a emblemática “Abra sua Cabeça”. A introdução dessa composição é feita por ninguém menos que Tony Allen, o baterista conterrâneo e diretor musical do grupo nigeriano que criou o afrobeat. Clarividente. O mestre abre a roda para o poderoso casamento de batuque e jazz que mexe com nossos sentidos. E reforça também, com seus metais e tambores, o talento bem temperado de um combo de músicos azeitados e que não brincam em serviço. Os deuses da África e do Brasil baixam sem dó nem piedade nos dedos e pulmões de Alexandre Garnizé (vocal), Claudio Fantinato(percussão), Mônica Ávila(sax e flauta), Rodrigo Larosa(percussão), Gottardi(guitarra), Maurício Calmon(teclado), Marco Serragrande(trombone), Leandro Joaquim(trompete), Zé Vitor(guitarra), Fábio Lima (sax), Gustavo Benjão (guitarra), Thomas Harres(bateria), Thiago Queiroz(vocal). Na canção de abertura, essa galera afinada leva o afrobeat a extremos num instrumental pontuado por letra curta, dispensável até, tal a pegada orgânica do som, mas que não tira o brilho dessa instigante música.

Cabeça aberta, o álbum segue na trilha “afrobeatiana” com outras criações de peso não deixam a peteca cair para quem está disposto a ser definitivamente abduzido pela dança. África e tambor batem forte em “Oya! Oya!”, com metais e instrumentista tinindo, numa música engajada com direito a citação dos revolucionários Hélio Oiticica e Che Guevara, repetindo também aqui a politizada atitude da escola arquitetada por Fela Kuti: “Seja marginal, seja herói/Pois é a margem desse rio que eu pego peixe pra alimentar/ (...) Um camarada diz: Sem perder a ternura jamais”. Mesmo teor contestatório presente na mais cadenciada, mas não menos vibrante, “Com Quem”: “Eu te disse o que ia te acontecer com quem quer te ferrar/Com quem rouba seu dinheiro/Com quem rouba seus direitos”. E assim como começou, “Abra sua Cabeça” termina sua enérgica viagem pela batida africana em “Peleja”, uma das melhores do álbum, com discurso aberto e direto em defesa da negritude: “Negro se vê diferente, porque certamente igual não é/Ainda tem muita gente que acha que negro nem gente é”.

Pupillo troca sua experiência e influência com a Abayomy em músicas onde podemos perceber a fusão do afrobeat com a sonoridade da Nação Zumbi em perfeita sinergia, sem que o bando carioca varra sua identidade. Às vezes de forma mais direta, como na superbacana e hipnótica “Vou pra Onde Vou”, que conta com a participação na letra e voz de Jorge Du Peixe, vocalista da Nação, música que bem poderia ter saído de um CD da banda pernambucana. E também na mais pop e funkeada, “Mundo sem Memória”, com o endiabrado Otto dando um alô e fazendo ode ao samba: “Não fique por perto, que o samba é elétrico, o samba é feito de raio e trovão/Com cheiro de rosa, perfume na mão, a mulata assanhada não pede perdão/Diz aí companheiro, o samba é guerreiro”. Ou na climática e bonita(repare nas camadas produzidas pela guitarra) “Sensitiva”, único momento em que o grupo tira o pé do acelerador e tece um tapete de rosas para a cantora Céu pisar e cantar com sua voz sensual. Do número dela, essa linda canção. Com um pé na África e outro no Brasil, Abayomy faz de Abra sua Cabeça um vigoroso exercício de beleza e precisão, o estreitamento de laços com uma música dançante, corajosa, feita para ouvidos valentes e almas espertas. Sal grosso pra afastar mazela e mau olhado. É assim que se faz quando se vem pra ficar.

Cotação: ótimo

Baixe Abra sua Cabeça: